O Bolshoi nomeia substituta interina do diretor Sergei Filin, após ataque com ácido

Autoridades russas exigem uma investigação severa do caso, para que a imagem do país não seja danificada.
O Bolshoi nomeia substituta interina do diretor Sergei Filin, após ataque com ácido

Step by Step Destaque de performance de uma bailarina. jacsonquerubin via Compfight

Após sofrer um grave ataque com ácido sulfúrico na última sexta-feira, em Moscou, o diretor de Balé do Teatro Bolshoi, Sergei Filin, de 42 anos, foi substituído hoje por Galina Stepanenko, nomeada diretora artística interna do balé e também foi submetido a uma cirurgia estética, já que a agressão teve como alvo principal o seu rosto, o que provocou queimaduras faciais de terceiro grau. Além disso, nesta quarta-feira, Filin será objeto de uma nova operação nos olhos, segundo o Departamento de Saúde da Prefeitura de Moscou.

"Foi uma decisão de Sergei. Eu dei meu aval. Sergei está a par de tudo o que acontece no teatro. Espero que isto lhe dê novas forças. Stepanenko é muito conhecida, apreciada e respeitada no meio. Tenho certeza de que Sergei, embora eu não possa especular quando, voltará a seu cargo. As pessoas que efetuaram e organizaram este crime horrível contavam com a desestabilização do teatro e o pânico do coletivo do balé. Acho que o grupo se esforçará como nunca para colocar em prática os planos artísticos projetados por Sergei", ressaltou Anatoli Iksanov, diretor-geral do Bolshoi, de acordo com informações coletadas por agências de notícias locais.

Em entrevistas concedidas pela nova diretora artística, a mesma afirma que está em permanente contato com Filin e que não realizará mudanças no repertório: "Aqui, em um pequeno espaço, se encontram pessoas muito brilhantes, diferentes e talentosas. Acho que agora devemos respeitar todos, valorizá-los e cuidar deles", destacou.

Sobre a agressão, Filin admitiu que deveria ter se precavido mais, no entanto, hoje declarou ao jornal Komsomolskaya Pravda, de Moscou, que pediu proteção após ter recebido "graves ameaças" e, ao final, lamenta: "Vinculo o ocorrido a meu trabalho. Me culpo por ter tomado o caso superficialmente. Tinha que ter informado imediatamente, antes do Ano Novo, a toda a imprensa que as ameaças continuavam chegando. Atiraram o ácido no lado direito. Meu olho direito ficou mais danificado e terá que ser tratado por muito mais tempo. Me prometeram que o olho esquerdo seria salvo. Não perco o ânimo. Às vezes, consigo ver todos os dedos da minha mão".

Em depoimento à Folha de São Paulo, a bailarina brasileira Mariana Gomes, de 24 anos, que integra o grupo de Balé Bolshoi, falou sobre a rivalidade no entorno teatral e sobre suas impressões nos ensaios, após o ataque ao diretor: "Temos pavor de pensar que pessoas como essas podem estar no nosso camarim, podem estar dançando valsa comigo em algum ato de algum balé. Vidro na sapatilha, tirar colchete de vestido antes do espetáculo, agulha no arranjo de cabelo, tudo isso eu sei que acontece, mesmo parecendo exagero. Já vi muita coisa e já perdoei muitos casos deste tipo, mas, dessa vez, não."

A seguir, pode-se ler na íntegra a entrevista concedida por Mariana Gomes à Folha:

"Teatro é um meio cruel, onde nossa carreira é curta, bailarinos são muitos, sonhos maiores ainda e o pior, ambição. Todos amam o que fazem, às vezes nos cansa, irrita, muita força, trabalho, suor e energia gastos e o retorno nem sempre corresponde ao esperado. Já vi bailarinos que se drogam, se alcoolizam, existem casos até que foram parar em manicômios durante turnês. Tudo isso acontece, e entendo bem o porquê estando neste meio. Já vi bailarino andando na rua de tarde, na hora do almoço, e cumprimentando pessoas na rua como se estivesse representando no palco o papel do dia de gladiador. Já vi muita coisa e já perdoei muitos casos deste tipo, mas, dessa vez, não. Não entra na minha cabeça tamanha ambição. Esse exagero é o reflexo do que vem acontecendo com os artistas ali dentro, é o auge, o que faz todo mundo pensar no que está acontecendo. Uma tragédia: Sergei nos últimos dias não enxerga e reage somente a luz, claro e escuro- foi a última notícia que tive dele.

Frequentamos igrejas, acendemos velas, os ensaios começaram com mensagens e choro. Temos pavor de pensar que pessoas como essas podem estar no nosso camarim, podem estar dançando valsa comigo em algum ato de algum balé. Quando cheguei ao teatro Bolshoi, sete anos atrás, Sergei Filin ainda era primeiro bailarino. Lembro quando dancei o balé 'Cinderella' e ele descia a escada do segundo ato no baile sentado no corrimão, escorregando, e a platéia gritava: oooooh! Realmente, técnica, beleza, carisma de causar espanto e, obviamente, inveja.

Anos depois, ele foi diretor do Teatro Stanislavski, segundo maior teatro de Moscou, e chegou como diretor do Bolshoi no auge, com a reabertura do palco histórico, em outubro de 2011. Cargo muito concorrido, antes ocupado por Yuri Burlaka e Alexei Ratmanski. Mas nenhum desses diretores sofreu tal pressão de artistas, imprensa e público. Sergei chegou no momento em que o teatro explodiu, com transmissão on-line e em cinemas, abertura do palco, grandes turnês e muito sucesso.

No meu primeiro ano de Bolshoi, ainda sem falar muitas palavras em russo, lembro que recebi comunicado do teatro de que eu deveria pagar taxa equivalente a US$ 200 para me registrar na cidade legalmente. Eu, estagiária na época, sem salário, chorava no restaurante do teatro sozinha, quando Sergei, aquele primeiro bailarino, príncipe, chegou até mim e perguntou o que havia acontecido. Pela primeira vez alguém tinha tentado falar inglês comigo. Eu contei a situação e ele me disse que resolveria. No dia seguinte, fui chamada ao caixa do Bolshoi, recebi o valor e assinei um recibo de 'ajuda de custo'. Nunca esqueci isso. Depois de anos de trabalho, ao saber que este Sergei Filin seria nosso diretor, fiquei realmente contente. Mesmo sabendo que ele não se lembra dessa história.

Só o que posso fazer é rezar por ele e pelos artistas que amam sua profissão e realmente estão perdendo a noção dos valores da vida. Rezo por essas pessoas que vêm transformando sonhos em pesadelos. Rezo para que esse templo Bolshoi continue sendo um ambiente de paz antes da concorrência, de arte antes do crime. E, com esses sentimentos no coração e lágrimas nos olhos, os espetáculos continuam e nunca vão parar, pois o dever do artista é acalmar e encantar o público, mesmo que por dentro do sorriso esteja mergulhado em dores, dúvidas e medos," arremata a bailarina. 

Desde o ocorrido, autoridades russas exigem uma investigação severa do caso, para que a imagem do país não seja danificada. No vídeo acima, pode-se ver a reportagem da CNN sobre o ataque a Sergei Filin.

O Bolshoi nomeia substituta interina do diretor Sergei Filin, após ataque com ácido
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