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Portugal, os portugueses e a língua – comunicação de José Ribeiro e Castro

José Ribeiro e Castro interveio na apresentação do Prémio Literário UCCLA. Prémio que resultou de uma proposta do Movimento 2014 - 800 anos da Língua Portuguesa.

Portugal, os portugueses e a língua – comunicação de José Ribeiro e Castro
O Heterónimo de Pedra. / Mundiario
O Heterónimo de Pedra. / Mundiario

Os portugueses são um povo raro, se não único. São o povo de um país que tem as mais antigas fronteiras geograficamente definidas. É assim na Europa; e no mundo também. Vamos fazer 900 anos desde que nascemos. Temos quase 800 anos desde que ficou definido o nosso território continental, no extremo ocidental da Europa. Não conheço outro país tão antigo com esta estabilidade de fronteiras.

Não existíamos antes de haver Portugal. Não havia portugueses antes do Reino de Portugal se formar e tornar independente. Os portugueses fomos formados pelo Reino e seu território. No século XIV, na crise do Interregno, já havia claramente portugueses e com uma forte consciência nacional: com D. João I e o comando heróico de D. Nuno Álvares Pereira, rompemos a dinastia para defender a independência de Portugal. Não éramos só súbditos. Já éramos titulares do destino.

Fomos o cruzamento de muitos que aqui estavam (iberos e lusitanos) com inúmeros outros que aqui vieram ter. Uns pelo mar: fenícios, cartagineses, mouros, diversos. Outros nas grandes migrações europeias ou por seus impérios: suevos, alanos, judeus, celtas, os romanos, visigodos. Todos aqui se cruzaram, na terra portuguesa, com o seu espírito, sob a sua bandeira. 

Ribeiro e Castro. / Mundiario

Ribeiro e Castro. / Mundiario

Formaram uma língua. A língua portuguesa também não existia antes de Portugal. Formou-se e afirmou-se por haver Portugal. O país existe desde meados do século XII. A língua afirma-se desde o princípio do século XIII. O testamento de D. Afonso II, dado em 27 de Junho de 1214, é considerada a data de referência para o “nascimento” da língua portuguesa, por corresponder ao primeiro documento de uma entidade oficial escrito já na nossa língua. 

Foi há pouco que comemorámos os 800 anos da língua portuguesa, em 27 de Junho de 2014, e lançámos o Movimento 2014. No final do século, em 1290, D. Dinis declarava-a língua oficial do país. O Reino fizera um povo e o povo fez uma língua que se tornou a do Reino. E, quanto aos povos que aqui se cruzaram, gerando o povo português, que lhes aconteceu?

Tinham parado aqui, não encantados com as paisagens, não deliciados com a gastronomia, mas porque não podiam, nem sabiam ir mais longe. Pararam aqui, porque não sabiam atravessar o mar, nem para onde. Um dia, aprenderam a atravessar o mar e assim fizeram. 

Foram os Descobrimentos, a partir do século XV. Com eles, levaram a sua língua, que tornaram global, presente em todos os continentes, uma das línguas mais faladas no mundo. Abriram a lusofonia, um dos mais ricos modos da globalização. E continuaram a cruzar-se com outros povos de muitas paragens.

É por esta história que apreciamos tanto este Prémio Literário da UCCLA, “Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa”, que já vai na 5.ª edição. O prémio, uma ideia do João Pinto de Sousa, foi a melhor forma de encerrarmos, pelo Movimento 2014, as celebrações dos 800 anos da nossa língua. 

Em 2015, a ideia foi logo agarrada, generosamente, pela UCCLA - a CPLP das bases, como costumo chamar-lhe - que, com a inteligência e a garra de Vítor Ramalho e Rui Lourido, a puseram de pé, a organizaram e concretizaram e vêm consolidando, ano após ano. Todos os anos há centenas de candidaturas de todos os cantos do mundo. Um êxito. A primeira atribuição foi em 2016.

Pensámos no prémio como uma das naus que, através de novos escritores em todo o espaço da língua portuguesa, a conduzirão por novos 800 anos. Já passaram cinco anos dessa viagem, já só faltam 795. 

Parabéns a Hermenegildo Castanheira e ao seu muito original “O Heterónimo de Pedra”, o vencedor da edição deste ano. É uma inesperada colecção de retalhos, pequenos contos entrelaçados entre si e entrelaçados com desenhos do autor, que nos proporcionam uma outra forma de respirar a nossa riquíssima língua. Boa leitura! José Ribeiro e Castro. @ mundiario